jueves, 22 de enero de 2009

A saída do casulo

Um leve roçar de corpos. Veludo. E então, recebendo um sopro morno na bochecha, ela acordou. Poderia ter fingido um pouco mais, porém o tímido arrepio a denunciou. Ninguém sente inconsciente ou sente? Observou covardemente a cascata loira que, com leveza, descia e escorria por seu colo desnudo. Os dedos da outra explorando os olhos assombrados dela, os lábios que pediam distância. Seu corpo ensimesmado e tenso sobre o colchão. A vergonha lhe consumindo. O processo do desfolhar da flor vivenciado por ela na noite anterior, a preenchendo e a torturando por dentro.
_Você é o licor e eu a embriaguez. – pronunciou a outra traduzindo a música francesa que tocava ao fundo daquela curiosa manhã.
O cetim relaxando suas pernas imóveis. As palavras abortadas. As mãos suadas. E seus olhos se acharam. A reconhecida e estranha sensação. Ela era da outra e a outra era dela. Ela se aconchegou e se moldou nos perfumados braços da outra que a acalentava. O encontro do leite morno com a canela. Encontravam-se, se mesclavam, se criavam. E permaneceram naquele turbilhão de silêncios ,encarando o pecado descoberto.Não tinha outro jeito agora,ela era da outra e a outra era dela.

martes, 20 de enero de 2009

Maldita guerra,bendito amor

Depois de ter sintonizado em sua estação predileta,ao som de uma estonteante voz grave feminina,Lília observou mais uma vez a rua se enchendo.Os Ford de um lado para outro,as mulheres saindo de casa para mais uma esplêndida interpretação social – com muita diplomacia- achando que estavam imunes a olhares perspicazes e nada convencionais como os de Lília.Elas decoravam o roteiro,Lília não.Era praticamente impossível se mostrar vivaz e geniosa como de costume como aquelas pobre mulheres desoladas faziam.Desoladas,enquanto convivam com a idéia de serem trocadas por fuzis.estavam aceitando a inevitável e forte presença da incerteza em seus dias.A incerteza e a dúvida de saber se teriam os pais de seus filhos novamente sentados à mesa.Passavam vinte e quatro horas do dia questionando o porquê de sua viuvez momentânea.Mas pensar em ser viúva é doloroso demais,a dor transborda.Parecendo engolir trapos de pano,Lília vez ou outra se perdia em sua marca de batom vermelho carimbada no cigarro seguro entre os dedos trêmulos.O cômodo apertado foi ganhando espaço.o clima gelado e sufocante foi substituído por uma onda de calor e de frescor.O cheiro da sua colônia a abraçou.Por alguns segundos,Lília fechou seus olhos.Sim,ele estava sorrindo.Para ela,e somente para ela.Como resposta,o lábio arrancou-lhe d’alma um sorriso.Sua tez morena e naturalmente bronzeada não estava com um vestígio de sujeira sequer e seus cabelos mais negros que a asa da graúna recendiam em um doce aroma.Os olhos ainda sustentavam ar pomposo e ardil.Lília não era capaz de suportar,e sem pestanejar se entregou.Ela pertencia a ele ,por que resistir?Desvaneceu em seus braços.Ele viera lhe buscar;aquele fato que importava.importava tanto que não sentiu quando o cigarro escorregou por entre seus dedos e lambeu rapidamente os tapetes,as cortinas,a mobília.Mas Lília não notou nem se preocupou,pois estava indo em boa companhia...

sábado, 17 de enero de 2009

rotina rotineira

Meus olhos despertaram com os respingos de uma chuva que batia na janela. Ainda tinha uma Dido no Media Player e uma dor de cabeça que insistia em me acompanhar. Meus pés gelados procuraram um abrigo, e após não achá-lo levantei levemente irritada. Estava nublado e por alguns segundos me peguei vidrada na manhã chuvosa que havia se formado lá fora, dançando torrencialmente. Foquei meu olhar na cama desarrumada e nos meus sonhos dissolvidos, escorridos e encharcados no lençol. Foi como se eu estivesse trancada em uma caixa extremamente pequena lutando por cada golpe de ar e antes que os pensamentos da noite anterior ressurgissem ,calcei minhas botas esbranquiçadas pelo tempo e vesti meu casaco de lã por cima do pijama. Inalei naftalina. Não quis me olhar no espelho para não sofrer tanto, pois tinha unido apenas o grosso do cabelo em um coque e certamente encontraria um bocado de fios soltos e úmidos decorrentes da angustiante noite passada. Mergulhei meus dedos no pote de doces para visitas na sala e apressadamente cacei duas gomas a fim de amenizar o hálito matinal deixando nada mais que uma porta fechada para trás. Meus olhos apertados procuraram enxergar algo além de neblina e carros com vidros fechados. Entrei em uma das mais antigas ruas do bairro e caminhei com os braços colados ao corpo. E caminhei. Topei com uma amoreira e capturei algumas as juntando na palma da mão. Percebi que as mais avermelhadas eram as mais azedas após experimentar uma e cuspir, e as arroxeadas eram mais doces em que a maior parte carnosa quase derretia na boca. Minhas pernas ainda caminhavam automaticamente enquanto avaliei meus dedos coloridos. Minha mente marcada pelo medo de ser a amora azeda, aquela que as pessoas cuspiam. Limpei meus dedos e balancei a cabeça expulsando aquelas idéias. Cheguei em casa e me encarei parcialmente no vidro da janela. Os cabelos molhados, os lábios coloridos artificialmente, um aroma desconhecido de planta. A cama desarrumada, uma Dido no Media Player e uma dor de cabeça que insistia em me acompanhar.

PS: Baseado em fatos fictícios

miércoles, 7 de enero de 2009

Férias,férias,férias

Acordei e me preparei para partir.Tomei o remédio para enjoo e saí.Não,não fui viajar para nenhum lugar extraordinário,apenas para a Barra.O remédio era forte e provocou sono,mas descobri isso depois enquanto batia a cabeça no ônibus,procurando uma posição boa para dormir parecendo aquele tipo de pessoa que me faz rir por ficar de boca aberta.Despertei com o cheiro forte de grama e percebi que estava realmente em outro local quando entrei no condomínio -megacidade- e me deparei com três esquilos em uma árvore.Ah,sério,quando que nós pobres mortais suburbanos temos a chance de ver esquilos fora do mundo da Disney?Parei na banca -dentro do"condomínio"-pra comprar a GLOSS desse mês e analisei a cena diante de mim.Senhoras bronzeadas levando cachorrinhos mais bem vestidos que eu para passear,casal de jovens atletas fazendo corridas enquanto discutiam a relação e babás,muitas babás correndo atrás de crianças no parquinho.
(Segurem o Jude Law!)
Me sentindo no Upper West Side,subi e dormi até a hora do almoço.Fui ao BarraShopping e me perdi naquela livraria maravilhosa que mais parece a Floreios e Borrões!
Implorei,quase vendi minha alma,e consegui ganhar o livro SUSHI com a condição de emprestar à minha mãe e à minha tia.Ok!
No momento em que devorava,com prazer e culpa, meu Cheddar Mc Melt com suco de laranja,recebi a notícia de que eu estava em primeiro lugar no listão não oficial da UFF...Fiquei em pânico; Chorei um pouquinho enquanto tomava sorvete e voltei pra casa -da minha tia,claro.Só volto de vez sábado. –completamente feliz. Sabe aqueles dias raros em que tudo dá certo?Hoje foi um desses...e agora estou aqui às 01:o5 da madrugada no laptop me sentindo a Carrie de Sex and the City ,comendo o último pedaço de bolo da geladeira e falando em coisa gostosa,estou vendo algumas fotos novas do Jake. Amanhã devo ir à praia de manhã e ler um livro lá,tomando uma água de coco quem sabe.E mais tarde,irei ao cinema.
Ô vida besta,meu Deus!

domingo, 4 de enero de 2009

2009 surpreendendo

E 2009 chegou.Queria ter falado como foi maravilhoso o dia primeiro.Como foi incrível virar a noite,ver o céu passando do azul escuro para o claro com borrões rosados, o sol surgindo timidamente,poucos passarinhos,a rua deserta,o prédio silencioso e pela primeira vez em muito tempo gostei de estar ali não sozinha ,e sim comigo mesma.Meus pés um pouco sujos por ter dançado do lado de fora de casa,a voz sussurrada de Norah Jones nos fones de ouvido,o mármore gelado em contato com meu corpo deitado...E nesses três dias de janeiro que se passaram,vivi momentos serenos.Foram momentos de lavagem da alma e estou me sentindo tão leve. Estou com um livro na mão.São inúmeras folhas brancas amarradas por uma fina corda com uma capa de couro simples.Eu decido o que quero que tenha ali.Posso escrever sofrimento ou felicidade.