sábado, 17 de enero de 2009

rotina rotineira

Meus olhos despertaram com os respingos de uma chuva que batia na janela. Ainda tinha uma Dido no Media Player e uma dor de cabeça que insistia em me acompanhar. Meus pés gelados procuraram um abrigo, e após não achá-lo levantei levemente irritada. Estava nublado e por alguns segundos me peguei vidrada na manhã chuvosa que havia se formado lá fora, dançando torrencialmente. Foquei meu olhar na cama desarrumada e nos meus sonhos dissolvidos, escorridos e encharcados no lençol. Foi como se eu estivesse trancada em uma caixa extremamente pequena lutando por cada golpe de ar e antes que os pensamentos da noite anterior ressurgissem ,calcei minhas botas esbranquiçadas pelo tempo e vesti meu casaco de lã por cima do pijama. Inalei naftalina. Não quis me olhar no espelho para não sofrer tanto, pois tinha unido apenas o grosso do cabelo em um coque e certamente encontraria um bocado de fios soltos e úmidos decorrentes da angustiante noite passada. Mergulhei meus dedos no pote de doces para visitas na sala e apressadamente cacei duas gomas a fim de amenizar o hálito matinal deixando nada mais que uma porta fechada para trás. Meus olhos apertados procuraram enxergar algo além de neblina e carros com vidros fechados. Entrei em uma das mais antigas ruas do bairro e caminhei com os braços colados ao corpo. E caminhei. Topei com uma amoreira e capturei algumas as juntando na palma da mão. Percebi que as mais avermelhadas eram as mais azedas após experimentar uma e cuspir, e as arroxeadas eram mais doces em que a maior parte carnosa quase derretia na boca. Minhas pernas ainda caminhavam automaticamente enquanto avaliei meus dedos coloridos. Minha mente marcada pelo medo de ser a amora azeda, aquela que as pessoas cuspiam. Limpei meus dedos e balancei a cabeça expulsando aquelas idéias. Cheguei em casa e me encarei parcialmente no vidro da janela. Os cabelos molhados, os lábios coloridos artificialmente, um aroma desconhecido de planta. A cama desarrumada, uma Dido no Media Player e uma dor de cabeça que insistia em me acompanhar.

PS: Baseado em fatos fictícios

1 comentario:

Red Berry. dijo...

Poderia ser baseado em fatos quase reais.Gostei - como sempre,né?LOL
Saudades da minha autora preferida.
BEIGOSEVAMOSSAIR!