martes, 22 de abril de 2008

Adeus


Ela tirou a última lasca do esmalte verde de sua unha do dedo indicador.Seus pés estavam entrelaçados para evitar que ela não controlasse sua mania de balançá-los.Seu traseiro estava ficando gelado naquele banco de ferro puro.Por que esquecera de colocar uma jeans grossa?Deveria ter aceitado o convite de sua mãe de ir ao Shopping,mas ela gastaria toda a sua mesada com CDs da Madonna ,então que diferença faria?Por que ela não voltava sua atenção à conversa ao invés de pensar em tantas coisas tolas?Mas a Madonna era a Madonna.Ela não era o tipo de mulher que aceitava justificativas de homens que a deixaram.Que a deixaram e não a queriam de volta,apenas se justificavam.
_ E eu me sentia meio que distante,entende? - ele a olhou de relance para verificar sua reação mas ela continuava a afirmar roboticamente com a cabeça olhando para o horizonte.
Mas a Madonna apanhou do marido...Ela não aceitou as justificativas e teve que lidar com as consequências?
_...e você sabia sobre o que a Kristin falava da gente...
Quem se importa?Ela era uma babaca.Ela sim deveria apanhar do namorado,não a Maddie.
_ E você agia sempre daquele jeito... - ela viu de lado o bafo de fumaça que saiu de sua boca.Boca que talvez estivesse beijado a outra minutos antes.Boca que fazia o corpo da outra amolecer como acontecia com o dela.- E você sabia não é Mag?
_U-hum. - se limitava a responder quando ele notava sua ausência -
Mag?Mag?Por que ele insistia em me chamar daquele modo? Para que eu sentisse pena,talvez. Pena dele ou pena de mim?Como ele chamava a outra então?Chamaria de um apelido para que futuramente o usasse para terminar como fez comigo?
_E quando percebi,eu estava preso a você... - sua voz pareceu estar em câmera lenta -
E por que se soltou?
_Não gosto do clima que ainda está entre a gente...
Que clima?Quando passo pelo mesmo corredor que você e abaixo a cabeça?Quando me escondo no vestiário no momento em que você apresenta a outra para os demais com um sorriso?Quando eu finjo desamarrar o nó do meu cadarço quando você chega na roda para cumprimentar?
_ E queria ouvir sua gargalhada alta de novo pelo refeitório... - ele deu uma risada sem graça -
Ainda diz que não estou mais alegre sem ele por perto.E eu estou?Alguma vez eu fui?
Houve um silêncio,em que ele inspirou.Senti seu olhar em mim.Seu olhar esverdeado com cílios longos que eu gostava de contar quando estávamos tão perto. E ele disse tudo.Explicou tudo.Não diria mais nada e não escutaria sua voz novamente.
_Então é isso...Só queria te falar essas coisas...
Se sente melhor agora?Aliviado?
_ A gente se vê,não é? -havia tensão em sua voz?medo?Ele queria que a gente se visse?Ou disse apenas por educação para deixar um ar agradável de "Então até mais tarde"?
_U-hum. - ainda olhava para frente.Meu cabelo ainda estava úmido o suficiente para ocultar meu rosto,meus olhos com o lápis borrado,meus lábios salgados e minha garganta seca.
_Então beleza,Maggie. - ouvi o arrastar do seu casaco pelo banco.Ele se levantou.Se perguntava por que em quase uma hora de conversa eu não havia olhado para ele uma vez sequer? - Até.
E saiu.Eu havia acordado cedo naquela manhã fria de domingo para ouvir um Adeus.Para ouvir pela última vez o timbre rouco de sua voz.Para sentir pela última vez o seu perfume cítrico.Para gostar pela última vez de sentir o calor de sua perna perto da minha.Para dizer Adeus.

viernes, 18 de abril de 2008

A sala


Ai,eu estou passando por um processo de transformação tão bom!Estou gostando tanto da pessoa que estou me tornando...É como se dia após dia eu criasse uma nota musical e anotasse no rodapé de uma folhinha de papel.Eu espero,sem pressa,ver um dia a melodia pronta...Enquanto isso,me preocupo com as notas individuais;reparando nos detalhes da curva do desenho,na cor da tinta da caneta que irei usar,nos pensamentos bons que tenho enquanto escrevo ,com cuidado e calma ,o rabisco...
Estou amando ne sentir assim.Estou sentada em um cantinho de uma sala vazia,percebo a sol se manifestando por entre a fresta da janela enquanto sigo o caminho dos pequeninos flocos de poeira que consigo enxergar na luz...o chão é de carpete bem macio,como veludo...Se não me engano, o tom é azul-marinho,um tantinho desbotado mas ainda assim, com sua graça...Graça que é concedida por segredos;segredos de muitas pessoas que pisaram com os pés descalços naquela salinha...Encosto com a palma da minha mão bem aberta no carpete,como se estivesse também querendo deixar meu segredo por ali...As paredes são claras.Cor de gelo?Ou cor de sorvete de creme?Não há quadros,não há rachaduras, não há cortinas,não há nada...Estão todos.Somente todos os rostos serenos e satisfeitos que por ali também passaram...Olhei por um tempo,tentando ver se conseguia ver o meu.Há uma enorme janela,totalmente aberta,com vidros limpos.Tantas paisagens,tantas pessoas,tantos sentimentos do lado de fora...E eu,estou assistindo à tudo e todos.Continuo sentada,com os pés descalços e mãos grudadas no mar de veludo.Me inclino para trás,afasto uma madeixa de cabelo dos olhos e os fecho.Deixo o sol aquecer as maçãs do meu rosto enquanto sorrio,sorrio por dentro,contente por estar naquela sala...Na sala da vida,na sala das metas,na sala da mudança do meu eu.

domingo, 13 de abril de 2008

Fuga



" Os chafarizes,as ponts,os regatos,as esquinas,aqui,eles falam!
Nas sombras dos janelões e portas das velhas casas,o fantasma da História passeia,procurando ouvintes...
A carinhosa chuva lava os telhados que se apóiam,unidos como crianças de mãos dadas.Em cada pedra-saudade destas ruas ,eu vi a dança dos anos,a dança da alegria triste e da tristeza alegre;a dança dos grandes amores!"

Ai,que meu dia em Ouro Preto chegue logo...